quinta-feira, 25 de novembro de 2010

RECOMPENSA

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foi ontem, na ufpa, ao sol da manhã, recebi meu presente de aniversário antecipado. e não lembro de alguma vez ter recebido presente melhor. fiquei um pouco sem graça, e nem preciso confessar, era possível ver na minha cara. como a amiga, já de mais de meia década, a poeta e professora giselle ribeiro constatou talvez com espanto, pois para ela sempre fui o “menino apresentado” como dizia a velhavó, alzira. e giselle tem razão, não recordo de uma vez sequer que o tema em nossa pequena roda de amigos, de um jeito ou de outro, não fosse a poesia falada.

confesso agora: até mesmo eu me espantei desse “não saber bem o que dizer”. é que diante do auditório lotado, contagiado pela alegria desses estudantes maravilhosos, pela sua juventude, pela infância trazida de volta, naquela tarefa deles que mais parecia um compromisso puro e simples com o prazer e a procura de sentido e conforto para a vida, contagiado por tudo isso eu ficava me dizendo: “nossa! o pablo tinha que ver isso... e também a mãe do pablo e também o meu pai, cujo rosto se apagou em qualquer verso que nunca acertei escrever...”.

queria que essas pessoas pudessem enxergar nesses dias difíceis como é digno o meu trabalho, como é valioso e importante, ainda que sob o sol de hoje cifrões sejam convertidos em estrelas. queria que eles vissem e reconhecessem isso, não que eles não reconheçam de alguma forma, mas a dureza e a aspereza dos dias enrijece tudo em volta, e às vezes eu mesmo preciso lembrar de acreditar nisso: a poesia é o chão de um quintal onde me escondo a desenhar declarações de amor pela família, pela cidade, pelas árvores, rios, amigos e outros bichos.

me lembro que certa vez, num sarau, um escritor que respeito muito botou a mão no meu ombro, e meu coração estava quase saindo pela boca, porque já era a minha vez de dizer poema, e o poema que eu planejava era de f. pessoa, um poemaço! daí, com a mão no meu ombro ele disse “rapaz, ser poeta é ser menos poeta...”. achou que eu estava me exibindo, e de certo modo eu também achei o mesmo. aquilo me deixou tonto, fui falar já meio desinteressado. e saí pensando que era demais, então, escrever os versos e ainda falar poemas, saí pensado isso e outras tolices. não parei de dizer poemas, mas passei a evitar dizer ao menos os meus em público.

é um mero acaso eu escrever poemas e também, como rapsodo, dizê-los, faço essas duas coisas simplesmente porque me sinto obrigado a fazê-las. é meu dever, intransferível. é o que eu diria hoje ao admirável escritor.

mas que bom: giselle tanto insistiu comigo para, como nos velhos tempos, ouvir os poemas, que acabei me tornando ontem de manhã, cheio de honra, mais um daqueles estudantes felizes. é isso: ontem eu fui um estudante feliz.

ah, e para o leitor cult, o intelectual dos manuais, que ao fim desse texto pode estar pensando coisas como "quanta sentimentalidade, poesia não é isso!" e blá blá blá. concordo, isso aqui não é poesia, não. poesia foi ontem de manhã...












iv sarau de poesia
'de negrume o besouro brilha'
estudantes de letras da ufpa
disciplina teoria do texto poético
idealização: prof. giselle ribeiro
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(o sarau foi baseado nos livros 'infância vegetal' (2004),
'orquídeias anarquistas' (2007) e 'retruque' (2010) de paulo vieira)

12 comentários:

amanda disse...

Adorei ter participado desse recital, até agora não acredito em como tudo aconteceu, foi tudo lindo e magico.hoje pensei que tudo já era lembrança,mas, que nada li o que o poeta escreveu sobre nós e chorei,chorei lagrimas de muito obrigada, pois, na realidade nós é que temos que agradecer por você ter tocados nós nossos corações por meio de seus poemas.

josy disse...

Oi Paulo,
"quanta sentimentalidade, poesia não é isso!"
Que bom que nunca revelei a sentimentalidade e a pieguice de minhas poesias [risos].
Concordo com você: poesia pra mim, também é onde me escondo para revelar meu mundo, ainda que esse "revelar" seja ao papel e/ou a quem sobre o papel se mostra.
Imagino o que deves ter sentido ao ser homenageado pela turma da Gisele. Essa, creio eu, é uma das verdadeiras recompensas para o poeta, para os amantes da poesia. Parabéns pelo fôlego, pela vontade e coragem de continuar. Ainda bem que continuas...

Anônimo disse...

oi! sou jack sampaio, recitei o poema "um poema para pablo" no recital de poesia. adorei conhecer seus poemas, fico feliz que a professora giselle tenha escolhido seus escritos para que trabalhassemos em nosso primeiro recital. falo em nome de todos quando digo que foi uma experiencia unica e maravilhosa participar do recital, assim como te-lo conhecido. peço desculpas por que eu, em meu nervosismo, cheguei a errar um verso e isso comprometeu minha performance. ainda sim fiquei feliz em faze-lo, tropegamente, e apresentar mais um belo poema seu ao publico. obrigada pela presença, pela simpatia, pelo texto de agradecimento que acabo de ler.

jack sampaio

Wanda Monteiro disse...

Bravo! sinto-me feliz quando me deparo com jovens que cultivam o amor pelas palavras.. e o exercício fecundo pelo ato de lavrar o verbo.. wanda monteiro

Chão de Açúcar disse...

Beleza, Paulo!recebi aqui teu recado. Aguardo teu texto, mas avisa-me por e-mail pq o meu blog entrará em "recesso". Bjs e parabéns pelo sucesso! Diglia.

Chão de Açúcar disse...

Beleza, Paulo!recebi aqui teu recado. Aguardo teu texto, mas avisa-me por e-mail pq o meu blog entrará em "recesso". Bjs e parabéns pelo sucesso! Diglia.

paulo vieira disse...

prezada amanda,

ainda assim o agradecimento é meu. e vejo em suas palavras que muitas sementes foram lançadas. agora é dar a elas as condições ideias para rebentarem, e subirem até as nuvens e os sonhos. aproveite ao máximo seu curso e mostre aos outros o que as 'palavras' significam de fato.

um abraço,

paulo vieira disse...

cara josy,

é exatamente como você diz. e para mim raia sol de saber que tantas pessoas compartilham esse sentido para a vida, quando muitas vezes tudo é um imenso vazio. sigamos, obrigado pela presença e comentário.

com alegria, um abraço.

paulo vieira disse...

Prezada jack,

longe de atrapalhada ou tropega, sua performance foi tocante. não se preocupe com detalhes (por exemplo errar ou trocar um verso, isso faz parte da vida, inclusive). gostaria que soubesse que 'um poema para pablo' foi escrito muitos anos antes de eu ter um filho, e este quando veio, veio com esse nome 'pablo' não por conta do poema, ou de um neruda, mas por conta da palavra em si. oxálá ele cresça pablo, feito o pablo do poema.

abraço,

pablo

paulo vieira disse...

olá cara wanda,

sobre seu comentário eu idem e ibdem. obrigado pela visita e leitura.

abraço,

paulo vieira disse...

olá chão,

acho que o texto vai ficar bom,sim. pode deixar, assim que pronto envio a você.

abraço,

Lorena disse...

Olá Paulo, recitei o "poema para Glauco Mattoso", gostei muito da experiência em o Recital, o viver a poesia! E é isso que eu tenho feito, ando doente de fazer poético!É uma doença boa e uma cegueira estranha aos que amam ao Sol!Convido você para fazer um passeio poético em meu blog:http://porummundodeletras.blogspot.com/
Abraço.