sexta-feira, 24 de maio de 2013

Estudo busca redimir romance de estreia de Oswald de Andrade

24/05/2013

Por Ana Cláudia Fonseca
Agência FAPESP – José Oswald de Souza Andrade (1890-1954), um dos precursores do Movimento Modernista brasileiro, era uma figura instigante e polêmica. Na provinciana São Paulo dos anos 1920, o poeta, ensaísta e dramaturgo era considerado subversivo, excêntrico, imoral. Foi casado diversas vezes e integrou o Partido Comunista, o que ajudou a aumentar o escândalo em torno de seu nome. Muitos chegavam a desviar do caminho para não cruzarem com ele. O preconceito social contagiou sua obra, que por muito tempo foi relegada em prol de autores mais palatáveis.
No livro Eros Alegórico da Melancolia e do Progresso, lançado em abril pela Alameda Editorial com apoio da FAPESP, o paulistano Sandro Roberto Maio busca compreender alguns aspectos das transformações da literatura brasileira no início do século 20, tendo por centro o primeiro discurso modernista a partir da ficção construída em Os Condenados, a trilogia do exílio de Oswald de Andrade.
A opção por centrar o foco em um obscuro romance de estreia, considerado menor pela crítica, foi feita exatamente por não ser óbvia. Sandro Maio busca apontar como Os Condenados, mesmo sendo um romance lateral, foi uma tentativa de modernização literária.
Os romances que compõem a trilogia – Alma, A Estrela do Absinto e A Escada – mostram o diálogo com uma literatura produzida com certo padrão de importação, feita por intelectuais que buscavam conformar a expressão local ao universalismo europeu. “É um romance de diluição para a introdução de novas formas de literatura, uma espécie de busca da representação da modernidade, uma narrativa que levanta questões importantes sobre a produção literária do período”, afirma Maio.
Embora o modernismo no livro ainda seja distante das características vanguardistas que o consagrariam posteriormente – a escrita telegráfica, a blague, os cortes cinematográficos, as técnicas do cubo-futurismo –, já é possível perceber na construção ficcional do romance uma escrita de transição, pautada pelo desejo da inserção de elementos modernos para a demonstração de uma obra atual. O ritmo do texto é irrequieto, de modo a indicar momentos de descontinuidade entre as imagens e a escrita. Mas a narrativa é passadista, tradicional e cheia de adjetivos.
Um autor fragmentado
Formado em Letras e atualmente aluno de doutorado em Teoria Literária na Universidade de São Paulo (USP), Maio explica que seu fascínio pelo autor modernista nasceu de referências não literárias, como a música popular, o tropicalismo e o teatro Oficina. “Oswald costuma chegar fragmentado para o leitor. Sempre gostei de sua poesia, da blague, dos manifestos e da atitude crítica em relação ao que podemos considerar cultura brasileira. Mas tudo me vinha de modo difuso. Nunca o enxerguei como um escritor de literatura, como um escritor clássico. Eu o via como um personagem combativo da discussão cultural.”
Em sua dissertação de mestrado, desenvolvida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) entre 2005 e 2008, Maio tenta reverter esse quadro. Por isso, a escolha de Os Condenados. O livro agora publicado é fruto desse trabalho. “Na trilogia, não reconhecemos nem Oswald nem o modernismo propriamente dito. A linguagem dos livros é carregada, mas mostrar esse outro Oswald foi uma busca para compreender o modernismo por outro ângulo, talvez mais dinâmico e menos pontuado pelas marcas de rupturas já orientadas pela historiografia crítica", explica.
Segundo Maio, Os Condenados também merece atenção por sua aproximação com outras formas artísticas, como o trabalho com as imagens em diversos níveis (cinema, fotografia etc.).
O título da obra deve-se ao fato de que a melancolia e o progresso convivem na mesma esfera de expressão do poeta modernista no primeiro momento do movimento: a entrada de elementos que denotam um avanço, portanto signos da modernidade, em convívio com uma estrutura social rígida e conservadora do início do século 20. Em seu conjunto, Os Condenados expressa a inquietude com a realidade, destacando o papel deslocado do artista nesse contexto.
“O poeta é aquele que, excluído do sistema produtivo, busca seus assuntos nos resíduos que não servem à indústria ou ao mercado”, diz Maio. “Por isso, as imagens constantes do deteriorado, da prostituição, do suicídio, da errância de um sujeito que perdeu a função social reconhecida, de personagens que estão inseridos no vazio do sentido, na lama do progresso e na melancolia que imobiliza transformações.”
Eros Alegórico da Melancolia e do Progresso
Autor: Sandro Roberto Maio
Lançamento: abril de 2013
Preço: R$ 35,00
Páginas: 164

terça-feira, 21 de maio de 2013

POEMA COM MÚSICA

mudança de paisagem atendendo a pedido :-)

CLIQUE PARA OUVIR MINHA NOVA PARCERIA COM RENATO TORRES: MADRUGADA

sexta-feira, 17 de maio de 2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

domingo, 28 de abril de 2013

A ROSA O QUE É DE ROSA - 2 (JORNAL 'O GLOBO')


Benedito Nunes, leitor de Guimarães Rosa

Coletânea do crítico paraense, morto em 2011, reúne cinco décadas de reflexões sobre a obra do autor de ‘Grande sertão: veredas’, onde encontrou as condições para seu melhor trabalho como intérprete, articulando literatura e filosofia
 Por Jaime Ginzburg

Em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, o protagonista Riobaldo afirma: “Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso”. Ao elaborar imagens do passado, Riobaldo fala sobre sua vida de jagunço. Entre fantasmagorias transitam Diadorim, Hermógenes, Otacília, Joca Ramiro e a figura do diabo, na rua, no meio do redemunho. Enquanto relata sua trajetória, Riobaldo comenta o ato de narrar. O leitor, acompanhando o percurso do personagem, encontra questionamentos sobre as condições em que a narração é desenvolvida: “Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância”.

A observação sobre o ato de falar “falso” acentua a necessidade de refletir sobre a linguagem empregada no romance. Em seus estudos sobre a obra de Guimarães Rosa, Benedito Nunes (1929-2011) demonstrou imensa capacidade de pensar sobre a narração. O livro “A Rosa o que é de Rosa” permite avaliar o alcance dessa capacidade.

“Não se pode contar tudo”, explica Nunes, “nunca se vai diretamente ao vivido”. No artigo que dá título ao livro, publicado originalmente em 1969, o crítico é firme em sua posição de que a perspectiva do romance de Rosa “está longe de ser puramente realista”. Ao mostrar a fragilidade do trabalho crítico de João Gaspar Simões, Nunes se distancia da leitura do crítico português, pautada pelo realismo, e opta por examinar o que chama de “região ética” de “Grande sertão”. As reflexões sobre realismo e narração são construídas de modo consistente, propondo uma leitura do romance que valoriza a pluralidade temporal e a complexidade do ato de narrar.

Tempo e linguagem

A contribuição de Benedito Nunes à história das ideias no Brasil é extraordinária. Seu reconhecimento, embora consolidado, ainda está aquém da qualidade de seus livros. Duas características de Nunes saltam aos olhos de seus leitores dedicados: a independência intelectual, que se expressa na sua originalidade crítica, e a ultrapassagem dos limites disciplinares universitários, com um movimento firme e seguro entre diversas áreas de conhecimento. Os interlocutores mais constantes de Nunes são filósofos e críticos literários. No entanto, em razão da clareza didática e da coerência conceitual, seus livros podem beneficiar leitores envolvidos com outras áreas.

O lançamento de “A Rosa o que é de Rosa” constitui uma celebração de cinco décadas de trabalhos sérios de alto nível, e um privilégio para os que lecionam e estudam ciências humanas. O livro expressa um vínculo múltiplo e sempre estimulante entre Rosa e Nunes. Nunca antes desta edição, porém, esse vínculo mostrou sua força com a intensidade justa. Em dois artigos, Nunes relata um encontro com Rosa, em fevereiro de 1967, em um gabinete do Itamaraty, no Rio de Janeiro. O escritor pediu então que o crítico lesse e comentasse “Aletria e hermenêutica” (que Rosa incluiu como prefácio no livro “Tutameia”, publicado no mesmo ano). Além disso, falou ao pensador paraense sobre a presença da filosofia em sua ficção. Esses artigos foram escritos em perspectiva melancólica, dando visibilidade ao cruzamento que se estabeleceu em Nunes entre o impacto afetivo do encontro com Rosa e a percepção minuciosa que o crítico teve da produção do escritor mineiro.

Em Rosa, Nunes encontrou as condições para seu melhor trabalho como intérprete. O crítico, ao longo de sua produção, sustentou questões que reaparecem, de modo reiterado, em diversos textos. É possível destacar alguns tópicos: a definição do conceito de tempo, e as abordagens (linguísticas, estéticas, metafísicas) pelas quais seria possível representar a temporalidade; o papel da linguagem, incluindo suas relações com o mito e a realidade; as formas do ato de narrar, considerando as implicações da ruptura com o realismo na literatura.

Nunes desenvolveu reflexões teóricas sobre esses tópicos em textos notáveis, incluídos em volumes como “A clave do poético” (2010), “No tempo do niilismo” (1993), “A filosofia contemporânea” (1991) e “Crivo de papel” (1998). Nos ensaios de “A Rosa o que é de Rosa”, há trabalhos em que a interpretação sobre o escritor dialoga com essas reflexões. A erudição rara e a determinação em confrontar desafios fundamentam esse volume. É sempre bom aprender com Nunes, não apenas com os resultados de suas pesquisas, mas também com o movimento de seu pensamento.

A idoneidade intelectual de Nunes pode ser verificada em razão de seu discernimento. Além de registrar lealdade a pensadores que admira, ele confronta diretamente aqueles que, em sua opinião, não fizeram trabalhos adequados. Isso fica claro nas notas sobre o crítico João Gaspar Simões e, em especial, em seu estudo da tradução francesa de Rosa.

Nunes faz parte de um reduzido conjunto de críticos literários em que os passos do percurso de estudo são esclarecidos e demonstrados constantemente. Isso demonstra sua generosidade intelectual e abertura ao diálogo. Longe de verdades absolutas, Nunes evidencia que sua interpretação é uma construção.

Cabe acompanhar, por exemplo, as continuidades e mudanças em suas abordagens do romance de Rosa. Entre o texto “Primeira notícia sobre ‘Grande sertão: veredas’”, de 1957, e a conferência “De ‘Sagarana’ a ‘Grande sertão: veredas’”, de 1996, os critérios de leitura e a avaliação da qualidade do livro se modificam. Como ele diz, explicitamente, o romance não surgiu etiquetado “dentro de uma vitrina de teoria literária”. Foi o movimento de leituras interpretativas, em sua multiplicidade, que levou seu valor a ser reconhecido.

A continuada atuação de Nunes no campo da filosofia abriu horizontes reflexivos que qualificam os debates sobre literatura. Ele descreveu a sua própria atividade como “hibridismo crítico”, em “Meu caminho na crítica”, de 2005. “A Rosa o que é de Rosa” permite observar sua capacidade exemplar de articulação entre literatura e filosofia, sem reduções ou esquematismos. Nesse sentido, Nunes, intérprete de pensadores como Wittgenstein e Walter Benjamin, é uma referência indispensável para críticos contemporâneos que valorizam essa articulação.

Talvez o ponto alto do volume esteja na reflexão sobre o narrador em “Grande sertão: veredas”, pois dentro dela são elaboradas anotações sobre tempo e linguagem, que integram elementos examinados ao longo do livro. Ao observar que a narração pode ser interpretada como uma necessidade, Nunes propõe uma chave de leitura potente. Riobaldo, de acordo com suas considerações sobre o ato de narrar, estaria colocando a narração em suspeita, pois o relato “trama e destrama, descontinua a história, interrompida, salteada, reticente”. O crítico propõe que o tempo é central no romance, e que a oralidade se articula com o alto nível reflexivo da prosa. O estudo do narrador é apresentado como desafio de leitura, para o qual convergem questões sobre forma e temas no romance.

Livro traz textos raros

A qualidade do volume é acentuada pelo prefácio brilhante escrito pelo professor João Adolfo Hansen. Além de valorizar os trabalhos de Benedito Nunes, o texto se sustenta como um ensaio independente. A recusa do realismo, a convicção de que literatura não é documento, o componente arbitrário do simbólico, e a ausência de sentido pré-determinado para a vida são alguns dos elementos elaborados pelo crítico. O trabalho de Hansen dialoga de modo preciso com as contribuições de Nunes.

Leitores que acompanham a trajetória de Nunes vão reencontrar trabalhos integrados aos volumes “O dorso do tigre” (1969) e “Crivo de papel”. O volume surpreende ao acolher textos pouco conhecidos, ou de difícil acesso, como “Primeira notícia sobre ‘Grande sertão: veredas’” e “A Rosa o que é de Rosa”. A leitura atenta do volume motiva releituras renovadas de “O tempo na narrativa”, “A filosofia contemporânea” e “Introdução à filosofia da arte”, entre outras obras do crítico.
O livro confirma a qualidade de reflexões de Nunes, anteriormente publicadas, sobre arte e conhecimento, mimese, filosofias da existência e o pensamento de Wittgenstein. Para além disso, o volume nos beneficia com um reencontro necessário com um pensador que, ao morrer em 2011, deixou caminhos abertos. Estamos em tempos em que sentimos com força o peso dessa perda. 
Jaime Ginzburg é professor associado de literatura brasileira na USP. Publicou, entre outros trabalhos, “Crítica em tempos de violência” (2012) e “Literatura, violência e melancolia” (2013)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

'AMARGADO!"

em belém, num tempo outro, by sol gonzalez,



sexta-feira, 12 de abril de 2013

quinta-feira, 4 de abril de 2013

sábado, 30 de março de 2013

MEU AMIGO BENÉ




Sabe-se que é comum no Brasil o desenvolvimento ganglionar de quase tudo, inclusive do modernismo: os ventos da renovação submetem-se à distância geográfica. Basta observar as datas de fundação das revistas literárias da época, a partir de um epicentro entre Rio e São Paulo, sem esquecer o Centro, o Sul e o Nordeste. As datas indicam como o modernismo vai-se alastrando, quase que por ondas de choque. Em São Paulo há logo Klaxon (1922), lançada pelo núcleo puro e duro três meses depois da Semana de Arte Moderna, revista que pode ser considerada como marco zero. Outras viriam a seguir: no Rio, Estética (1924); no Rio Grande do Sul, Madrugada (1925); em Minas, A Revista (1925) e Verde (1927); no Nordeste, Mauriceia (1923) no Recife e Arco e Flexa (1928) na Bahia, a precocidade do Recife devendo-se à inoculação pelos militantes paulistas desde 1922.
Cada uma trazia seu manifesto. Entretanto, há casos de manifestos sem revista, como oManifesto de Anta, ou Nheengaçu Verde-Amarelo (1929), de São Paulo, que saiu em jornal e engendraria o Verdeamarelismo, cisma da ala mais à direita, seduzida pela sereia do integralismo. Mas mesmo o Pau Brasil de Oswald de Andrade (1924), mais conhecido como prefácio a seu livro de poesia de mesmo título, também foi manifesto sem revista. Não confundir com os dois números da Revista de Antropofagia, o primeiro estampando talvez o mais famoso de todos os manifestos modernistas, com ou sem revista, o Manifesto Antropófago.
Esta rápida súmula dos desdobramentos iniciais da renovação ajuda a definir melhor as raízes do grupo paraense. Pois é mais um caso de manifesto sem revista que assinala o advento do modernismo em Belém. Se desde 1923 já havia a revista Belém Novo, todavia ela não era modernista, apenas publicando esporadicamente alguma coisa relacionada a essas novidades. Assim, o marco inicial foi o manifesto Flamin’Assu (1927), redigido por Abguar Bastos e publicado em jornal. O "bolsão cultural", embora remontando a uma boa tradição local, seria assim fruto do modernismo, mesmo que tardio.
Então, quando uma nova geração surgiu, essa que estamos chamando de "grupo de Belém", as bases já estavam assentadas por aquilo que Antonio Candido chamou de rotinização do modernismo.
Rememorar o grupo implica lembrar as figuras que o constituíram, as iniciativas a que se dedicaram e as obras que criaram. No bojo dessa constelação, na literatura sobressaem logo o crítico Benedito Nunes, os poetas Mário Faustino e Max Martins, e o ficcionista Haroldo Maranhão. Há que destacar o papel relevante de Maria Sylvia Nunes, professora de música na universidade, que atuou num grupo de estudos da ópera por todos esses anos, vindo a desembocar na recente ressurreição da ópera amazônica após longo hiato. Muitos mais, inclusive estrangeiros, viriam agregar-se à constelação com o passar do tempo.
Benedito Nunes na crítica e na poesia o piauiense Mário Faustino, cedo desaparecido, logo adquiririam repercussão nacional. Deste último, a posição estratégica enquanto editor do influente Caderno B do Jornal do Brasil, no Rio, transcenderia a poesia. Divulgaria a tradução e a crítica estrangeira, bem como os concretistas, para os quais a folha se tornou praticamente um órgão oficial. Autores paraenses frequentariam essas páginas.
A geração seguinte forneceria continuadores também ilustres. O poeta Age de Carvalho seria cúmplice de Max Martins, ao ponto de comporem um livro juntos. Lília Silvestre Chaves, professora da universidade, sobrinha e orientanda de Benedito, além de poesia escreveu uma biografia de Mário Faustino em seu doutorado, e é tradutora de St. John-Perse, sobre quem versou seu mestrado. Nosso crítico sempre incentivou, ajudou a publicar, estudou e produziu textos a respeito dos conterrâneos e do embasamento autóctone, tal como consta do livro póstumo sobre a cultura do Pará que colige meio século de suas intervenções. Infatigável na animação desses intelectuais e artistas, presenteava os livros deles a amigos paulistas e cariocas, que nem sabiam das publicações.
Ele próprio era sobrinho de outro ilustre intelectual, o médico Carlos Alberto Nunes, nascido no Maranhão, que passou a vida fazendo traduções clássicas, como as da Ilíada e da Odisseia, afora o teatro completo de Shakespeare. Não era raro haver intelectuais de província, cultíssimos, geralmente bacharéis em Direito ou médicos, uma espécie hoje desaparecida. Guimarães Rosa foi um deles, até projetar-se extramuros na diplomacia. Alguns trocariam uma província por outra, como esse tradutor, que passaria quase toda a vida em Sorocaba. Tempos depois, Benedito organizaria a reedição paraense dos Diálogosde Platão, traduzidos por seu tio, em 18 volumes. O exemplo lembra outro maranhense, Odorico Mendes, que fez traduções prestigiadíssimas de Homero e de Virgílio. Beneméritos como esses executavam trabalhos de Hércules, devotando-se a vida inteira, com escassa retribuição, a algo que não dava dinheiro nem celebridade; mas prestavam um serviço inestimável ao saber.
Professor de filosofia cuja dupla lealdade se estendeu à literatura, nosso autor escreveu vários e excelentes livros nas duas especialidades; mas é fácil apontar entre suas preferências Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Desde o começo, identificou-se com esses ficcionistas maiores, seus contemporâneos e, como ele, da geração seguinte aos modernistas. Passaria a vida às voltas com esses dois, em textos definitivos e dos melhores que se podem encontrar. A formação conceitual e abstrata conferiu-lhe uma voz única: tamanha erudição, aliada a tanta sensibilidade, não é algo comum.
Quanto aos escritos filosóficos, nos últimos anos temos tido a sorte de contar com as afinidades eletivas de Victor Sales Pinheiro, discípulo dedicado e perito nos trabalhos do mestre, que vem preparando a edição da obra completa. Saíram recentemente dois volumes nessa vertente, Ensaios Filosóficos e Heidegger. Afora o alemão, os gregos estavam a todo momento nas cogitações de nosso autor.
Na vertente literária, o livro agora vindo à luz, A Rosa o Que É de Rosa (Difel), dá uma ideia da alta qualidade dos resultados. Reunindo tudo o que o autor escreveu sobre o prosador mineiro, incorpora o incontornável O Dorso do Tigre - no qual, entre tantas joias, se destaca o ensaio sobre Cara-de-Bronze. Nessa estreia rosiana já se divisa um crítico maior, à altura de seu objeto. Benedito gostava de contar que o amigo Haroldo Maranhão troçara do título por soar forasteiro, sugerindo que, para dar exemplo de brasilidade, fosse trocado por As Costas da Onça. Já nas obras inaugurais nosso autor demonstra as duas grandes linhagens a que sua crítica literária pertencia, ele, professor de filosofia: Heidegger e a estilística alemã, principalmente clássicos como Auerbach e Curtius. O diálogo com eles aparecia onde menos se esperava, como quando aponta certeiramente topoi da tradição ocidental, caso da velha-moça que vai encontrar em A Estória de Lélio e Lina, de Corpo de Baile. O organizador-editor anuncia para breve, após Guimarães Rosa, a consolidação de suas reflexões sobre Clarice. A Difel lançará ainda o inédito Fernando Pessoa: Poeta Metafísico.
Escrevia maravilhosamente sobre poesia. Basta lembrar a vasta produção sobre João Cabral de Melo Neto, outro contemporâneo seu igualmente da geração que se seguiu à dos modernistas. Tradutor de St. John Perse ele mesmo, também tem vários ensaios sobre outros poetas. Entre tantos, destaco um notável texto sobre Rilke que preparou a meu pedido para um curso de literatura universal na Biblioteca Mário de Andrade. Ponto alto do curso, ao encerrar a conferência (iniciada pelas palavras: "Rilke é o poeta da gnose") seria ovacionado durante dez minutos.
À reunião dos textos rosianos soma-se o outro dos dois livros que acabam de sair, O Tempo da Narrativa (Loyola), pequeno tratado teórico e didático, publicado sem maiores cerimônias. Concebido com o habitual rigor do erudito, passa em revista as várias modalidades das teorias sobre o tempo na prosa, sem esquecer a fenomenologia e o estruturalismo. Além de sua utilidade, serve para fazer-nos lembrar as múltiplas facetas da obra desse agitador cultural, que nunca recusava redigir prefácios nem participar de bancas, de júris, de congressos, de cursos ou de livros coletivos. Sua escrita límpida leva-nos à conclusão de que não é por ser heideggeriano que deveria cortejar o obscuro. E suas inúmeras iniciativas no campo da cultura instauraram linhagens em sua terra, tanto em disciplinas que criou para a universidade, quanto, menos conhecida talvez, a trupe de teatro amador que promoveu juntamente com Maria Sylvia Nunes e resultaria na Escola de Teatro. Cabe-lhe a honra de ter sido um dos fundadores da Faculdade de Filosofia. Mesmo em sua terra, Benedito Nunes tem tudo de um herói civilizador.
WALNICE NOGUEIRA GALVÃO É PROFESSORA EMÉRITA DA FFLCH-USP 

sexta-feira, 29 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

M. Vargas Llosa


trecho de entrevista de Mario Vargas Llosa ao Estadão http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,descrente-radical,1009781,0.htm
[...]
O efeito pernicioso avançou no tempo e chegou aos nossos dias, quando é cada vez mais escassa a figura do intelectual, concorda?

Totalmente. Esse é outro fenômeno inquietante de nossa época. O desaparecimento do intelectual significa também o desaparecimento das ideias e da razão como um fator central da vida social e política. Hoje em dia, as ideias foram trocadas pelas imagens, que são mais facilmente manipuláveis. Isso é uma grande ameaça para a democracia, pois uma sociedade com escassez de ideias tem suas instituições sob forte risco.
O que o senhor pensa sobre o poder das redes sociais?
Por um lado, há um aspecto positivo, pois as redes sociais aumentaram o poder da comunicação e da informação. Também dificultam a instauração da censura, como acontecia na América Latina há 40 anos - as redes sociais rompem qualquer controle. Por outro lado, o excesso de informação leva à confusão. Parece que vivemos em um bosque confuso onde não sabemos como nos orientar com segurança. Isso porque hoje em dia praticamente desapareceu uma instituição que, no passado, cumpria uma importante função na vida cultural e política: a crítica. Nas redes sociais, não há uma valoração da informação seguindo hierarquia tradicional, que distingue o essencial do secundário. Daí a confusão a que me referi antes.
E qual seria, nesse caso, a função da religião? O senhor sempre defendeu uma vida espiritual plena, mas sem nenhuma identificação com o Estado, certo?
As religiões, sem exceção, são intolerantes, pois trazem verdades absolutas, o que não combina com o espírito democrático. Ao mesmo tempo, uma democracia sem uma vida espiritual se converte em uma selva, como já disse Isaiah Berlin, em que os lobos comem todos os cordeiros. E, para que a cobiça e ambição material não regulem a vida, é preciso alimentar a vida espiritual. Mas o Estado não pode se identificar com qualquer religião - a história é pródiga em exemplos nefastos como perseguições, intolerância, inquisição. É importante ter um Estado laico com liberdade religiosa.
O que o senhor espera do novo papa, Francisco?
Espero que inicie o processo de modernização da Igreja, libertando-a de anacronismos como não tratar de temas como sexo e mulher. Caso contrário, vai continuar perdendo audiência. Os problemas com pedofilia que quase destruíram a Igreja nasceram dessa intolerância ao sexo. E Francisco parece ser moderno, com atitudes mais congregacionais.
Por falar em sexo, no livro A Civilização do Espetáculo, o senhor defende o erotismo como obra de arte.
Sim, o erotismo é resultado da cultura que, vinculado ao sexo, é transformado em uma atividade criativa. O erotismo é uma manifestação das civilizações e acontece em sociedades que alcançaram um certo nível de progresso humano. Por isso que cito muito Georges Bataille, defensor desse pensamento: ele sempre foi muito reticente à permissividade total, responsável por matar as formas, o que levaria o homem a retornar à uma espécie de sexo primitivo, selvagem. Infelizmente, isso ainda acontece em nosso tempo. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

DIA DA POESIA

brejo das almas... é seguir, com bom humor e pouco húmus.



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poema inédito de paulo vieira

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RIO








rio de janeiro by paulo vieira

sexta-feira, 8 de março de 2013

BELÉM - ÚLTIMA TEMPORADA



naquele tempo eu soube da pizza de frigideira, música eletrônica e os perigos da mescalina... e ainda sinto tanto a falta dos amigos.


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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

OS LIMITES DO PÁSSARO JURANDIR BEZERRA



poeta jurandir bezerra, foto by paulo vieira


Caros amigos,


O poeta paraense Jurandir Bezerra é pouco conhecido das rodas literárias nacionais. Há mais de 30 anos fixou residência no Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Autor do livro Os Limites do Pássaro (1993, Ed. Cejup), hoje aos 84 anos, Jurandir Bezerra é discreto, humilde e brilhante poeta. Estive com ele recentemente, e tive a honra de produzir o vídeo "Os limites do pássaro Jurandir Bezerra" que vocês podem assistir no youtube clicando aqui OS LIMITES DO PÁSSARO JURANDIR BEZERRA . Aproveito para pedir aos amigos artistas, jornalistas, professores e amantes das artes que assistam, curtam, compartilhem e divulguem o vídeo. A família Bezerra e eu agradecemos imensamente a atenção e o empenho de vocês na propagação dessa poesia forte, luminosa e aérea.

Um abraço a todos,