segunda-feira, 19 de agosto de 2013

SOBRE O SHOW DE HENRY BURNETT EM BELÉM NO ÚLTIMO DIA 15 DE AGOSTO



pra ter uma ideia dos show, antes de ler o texto, assista aqui OSWALD CANIBAL


by ADERSON ARAÚJO 

A arma do artista é sua arte. É um clichê tremendo tremendamente verdadeiro. E quando se fala em arte é força, habilidade, talento e pensamento unidos para transformação de si e do que está em volta. Não importa se para tal seja preciso um produto, esforço hercúleo, uma pausa na produção, um punho levantado, uma língua afiada ou se tornar uma presença incômoda por causa daquilo que se faz. Henry Burnett é essa presença incômoda de armas invisíveis na mão. É o visitante que ri na hora do silêncio e o que silencia ao ser instigado a dizer o que se espera que diga. É o nativo virado no mundo que encontrou na música a autoridade para falar do seu lugar e, ao mesmo tempo, de si. Ele chega na festa da música paraense como quem entra em um debate sobre filosofia, mesmo que os donos digam "música é pra dançar", sacudindo as pedrinhas de gelo nos seus copos com Green Label. No DVD "Por uns tempos", resumo de 20 anos de carreira de Burnett apresentado em show excelente no último dia 15 no Sesc Boulevard, ele lança mão de recursos dançantes também. Não com os sincopados e merengueiros eleitos como pérolas de exportação da cultura paraense. Mas com a porrada do rock como base de resistência, como em "Terra firme", relato sem retoques, culpas ou mistificações da lógica de vida das baixadas belenenses, e "Oswald Canibal", bela homenagem a Bené Nunes e o moderno Oswald de Andrade. Com uma banda entrosada e ciente, tendo o grande Renato Torres como auxílio luxuoso na guitarra e na crítica à cena local, Burnett diz com suas adagas sonoras que música é pra dançar. E para pensar e enxergar outros pontos de vistas. Por que não? Num cenário angustiante em que fazer música virou uma maratona para captar recursos em editais e/ou chegar ao Sul Maravilha abençoado por produtores caça-níqueis com uma visão deturpada e mal concebida sobre o que é ser paraense, a resistência ao status quo vem de São São José dos Campos, em São Paulo, falsamente estrangeira, para fazer o contraponto. Henry Burnett repensa Belém e seus movimentos de encolhimento e expansão na produção de cultura questionando os cânones e as relações de poder intrínsecas ao pensamento hegemônico. E se há quem diga que é mais fácil pensar de longe, Burnett diz delicadamente em "Belém de passagem", parceria com Paulo Vieira, que "onde quer que eu vá, a taba também vai." Não se coloca como um exilado a olhar de fora, mas um belenense a sentir a cidade por dentro, a carregar a cidade por dentro, com um trabalho de sofisticação universal com similaridades mentais com Caetano Veloso, Tom Zé, Walter Freitas, Edir Gaia e, para misturar mais ainda, com a Vanguarda Paulista e Chico Sciense. Mesmo quando "Por uns tempos" traz canções "Comum acordo", de uma safra mais antiga de Burnett, há ali uma alfinetada no comportamento, nas mentalidades, na maneira de se enquadrar com quem detém a caneta, embora a música não tenha sido feita para esse fim. É nesse momento que o show ganha contornos definitivos de provocação a pensar sobre o que está acontecendo com a música paraense, com Belém, com todos nós. "Espero com sinceridade ver tua cara num Terruá da cidade". O ápice é com o recado direto em "Feliz Natal, anormal", que vai estar no próximo disco e instiga uma reflexão sobre "autenticidade, comunidade, povo" e tudo que se tem feito para soterrar o que passou para sustentar a ideia de novo, de recriação, como se a cultura fosse estanque e não um contínuo de acumulações. (No vídeo vocês conferem a letra e papo reto dado pelo artista) A plateia do dia 15 compareceu satisfatoriamente ao auditório do Sesc Boulevard, mas o show de Burnett deveria ser um evento público maior, em campo aberto, para quem faz e gosta de cultura no Pará. Uma celebração que, se por um lado, não cabe em ufanismos baratos, por outro, não há como negar que é mais uma das refinadas e autênticas formas de fazer música e arte por essas bandas do País. Senão por uma voz que hoje já não reside debaixo do sol claudicante de Belém, mas quem nunca conseguiu se apartar dele por onde passou e armou acampamento, em qualquer ponto do mundo. Dia 30 de agosto o show será reapresentado, no Sesc Boulevard, às 19h. Não gosto da expressão, mas é. Imperdível. Se fosse vocês, eu iria.


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