terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

UMA CANJA DE POEMAS DO RETRUQUE: SETE SONETOS

vieiranembeira no simpósio olhares sobre o poético, 2 de dezembro, 2010.


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o palhaço

um palhaço trêmulo, gente, e o riso
de espanto frente as feras que lhe comem
as pernas, os braços e depois somem
na nuvem emplumada do improviso
na entrada do meu circo há um aviso
aqui jaz o espectro de um homem
alquebrado, fraco, mas não lhe tomem
por triste, ou derrotado, é mais que isso.
pois a corda bamba da morte ensina:
o sorriso é um verso sem palavra
que, oculto, põe navalhas na retina
e se ao canto o palhaço se escalavra,
cômico em sua dor, morto na ideia,
sobrevive aos sorrisos da plateia
 
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corcel memória
 
 
no coreto central a hirsuta crina
trepida contra o vento de granito
num torpor e frente a fúria assassina
das aves artificiais corre aflito
o infante mas esquece aos pés do mito
suas linhas, cerois e sua sina.
o corcel da memória se ilumina,
heitor desce as escadas e admito
que o sol deste sábado me consome
ainda que no céu não se apresente
inteiramente pois seu rosto some
em nuvens de matéria incandescente.
da praça em alucinante tropel
evade-se o heroico corcel
 
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soneto lazuli
 
 
certeira, no ombro, e o curare escorre
a selva azula-se, lazuli, gira
e por seu ângulo fechado a torre
irrompe num rompante e me delira
curto, o horizonte, apenas percorre
galhos, brácteas, pecíolos e a lira
da loucura dolente enfim transcorre
exéquias gloriosas e conspira
contra os últimos cedros e a liana
escondidos nos escombros da sombra.
a mim pouco denota a dor humana
quando a flecha arranco e na verde alfombra
pousa o licorne sua luz meridiana,
a ferida se fecha mas não sana
 
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o duelo
 
 
deixa o duelo ferido na coxa
nas mãos e nos pés sangue repisado
os baques zunindo dentro da mocha
deixa o duelo pendendo de um lado
a morte vem dentro da noite roxa
pousa seus dedos no peito parado
e é duro o embate feito o da rocha
contra netuno nas praias irado
se agarra o homem às vestes da morte
pressente em seus olhos a sua consorte
contudo está vivo e um novo duelo
precisa travar no campo sangrento
a morte se vai mas permanece o elo
entre o homem e seu complemento

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  tarde encalhada
 
 
blake fala de infanticídios e deus
esnoba os poetas - além do mais
existe a ira divina aos ateus
e os provérbios infernais aos demais
e quanto mais se adia o adeus,
mais enguias se reúnem, mortais,
no pátio encharcado junto aos teus
sapatos de passeio triviais
para desgosto de zeus nenhum raio
na tarde encalhada feito baleia
só chuviscos e os anúncios de maio
o infortúnio de um inseto contra a teia
lançado pelo sopro do desmaio
e o descaso da aranha frente a ceia

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  tela sensorial
 
  uns três ácidos na língua jovial
e o javali preso ao carro de bois
foi a primeira tela sensorial
de muitas outras que vieram depois
fiquei ligado na noite espacial
e vi que tudo era um sonho entre dois
astros mortos num domingo glacial
- tombados no cruel combate, pois
nenhum sol seria dócil ao ponto
de entregar os ponto cardeais -
mas se a candura atrai os animais
para a morte ainda não estou pronto
embora prove da cegueira pura
quando o ciclope ergue a viseira escura
 
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labor do amor
 
  circe não sabe a fórmula secreta,
se soubesse eu já estaria morto.
pois em meio a flores e odores, no horto
da morte, desgraças a mim decreta.
já senti mais medo e dor mais discreta
do que sinto hoje, velho e absorto,
e sempre escapo à circe, como um torto
foge do atentado ao sair da reta
mesmo sem querer, sem nem perceber.
mas se asfixio devo entender
que o labor do amor é feito um veneno
mais letal que o barbitúrico ameno
do abandono e seus efeitos suaves.
[circe pairando nua entre as aves]
 
 
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in retruque, poemas, 2010.

2 comentários:

Anônimo disse...

LINDOOO!!!!!

Beijos,Mariana.

paulo vieira disse...

manianhaum, bjs.