sábado, 22 de junho de 2013

CYBER ANARCO PUNKS


CYBER PUNKS SEM FUZIL NA MÃO

por Bruno Paes Manso e Diego Zanchetta - O Estado de S. Paulo
1º PROTESTO (quinta-feira, dia 6): Eram só cerca de 150 meninos do Movimento Passe Livre (MPL) e estudantes ligados ao PSOL e PSTU em frente à Prefeitura. Eles já haviam feito manifestações semelhantes em outros anos. Sem novidades.
Eles estavam na calçada, não atrapalhavam o trânsito e cantavam, em uníssono: "mãos para o alto, 3,20 é um assalto". Nada indicava que haveria surpresas. A manifestação deveria virar uma nota no jornal do dia seguinte.
Mas a PM decidiu agir. Por excesso de zelo - talvez um erro histórico -, passou a lançar bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral contra os jovens. Os manifestantes fugiram e foram seguidos até o Vale do Anhangabaú, entre a neblina do gás tóxico.
Começaria a ousada tática dos manifestantes de reagir via barricadas e interrupção do trânsito na hora do rush. Primeiro foram as Avenidas 23 de Maio e 9 de Julho. Depois, eles correram para a Avenida Paulista e se sentaram em frente ao Masp. A Tropa de Choque entrou em ação. Mesmo sem que houvesse tempo para perceber, algo novo e histórico estava acontecendo.
2º PROTESTO (sexta-feira, dia 7): No dia seguinte, os holofotes da imprensa já haviam se voltado para os jovens do MPL e dos partidos de esquerda. Eles se concentrariam no Largo da Batata - 5 mil pessoas compareceram ao ato. A combinação do grupo com a PM era encerrar na Avenida Eusébio Matoso, mas os jovens se dirigiram à Marginal do Pinheiros e interromperam o trânsito no rush antes do feriado. Em piada infeliz, um promotor pediu à PM que atirasse nos manifestantes.
A Tropa de Choque veio novamente com bombas de gás para liberar a pista. O comandante do Choque, coronel César Morelli, era o mesmo que havia abusado das bombas de gás um ano antes, no Pinheirinho, em São José dos Campos. A neblina tóxica não assustou os jovens, que passaram a correr da PM, a se concentrar em novos pontos e a interromper novas vias com barricadas. A ousadia do grupo causou perplexidade. A PM estava perdida.
3º PROTESTO (terça-feira, dia 11): A terça-feira da semana seguinte seria o dia da demonstração de força na Avenida Paulista. As redes sociais começavam a mostrar seu potencial. No terceiro protesto, os jovens e adolescentes que não tivessem em sua timeline do Facebook uma foto na passeata estariam cometendo suicídio social. Seriam os fracassados da escola. Doze mil pessoas compareceram.
A passeata começou de forma festiva na Consolação e não dispersou mesmo com o temporal. A PM acompanhava o cortejo de perto, sem provocar problemas. A situação só mudou de figura quando o grupo chegou ao terminal de ônibus D. Pedro II. Os manifestantes quiseram entrar, mas foram impedidos pela Tropa de Choque. Houve tentativa de negociação, mas novamente as bombas de gás foram o argumento usado pela PM para botar os jovens para correr.
Na subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, outra novidade surgiria. Jovens com afinidades anarquistas, boa parte deles pertencente a grupos de pichação que praticam cotidianamente a desobediência civil, os chamados Black Blocks, a "tropa de choque" dos protestos, subiram em direção à Paulista, quebrando agências bancárias, ônibus e pichando prédios públicos. O despreparo da PM se revelou novamente. Soldados quase foram linchados, em fotos que repercutiram nos jornais. Havia um clima de basta no ar. E os manifestantes persistiriam.
4º PROTESTO (quinta-feira, dia 13): O quarto dia de protestos deve ser apontado como o capítulo decisivo da novela. A população já parecia cansada de ser atrapalhada e havia no ar um clima de apoio a ações mais enérgicas da PM. Os policiais foram para as ruas dispostos a manter a Avenida Paulista livre. Cerca de 5 mil pessoas compareceram. PMs e estudantes combinaram que o ato se dispersaria na Praça Roosevelt.
Só que, na Consolação com a Rua Maria Antônia, a passeata insistiu em seguir em direção à Paulista. Cerca de mil policiais estavam preparados para impedir. As bombas começaram a ser lançadas. Na pista da Consolação sentido centro, carros parados foram bombardeados, juntamente com os manifestantes. Bombas e balas de borracha foram disparadas sem constrangimento. Policiais atiravam mesmo quando eram flagrados pelas câmeras de jornais e televisão. Jornalistas ficaram feridos, além de mais de cem manifestantes. A covardia e os excessos policiais, mostrados insistentemente na internet e nas TVs, viraram o jogo. Os jovens do MPL começavam a conquistar, junto com sua geração, um lugar na história.
5º PROTESTO (segunda-feira, dia 17): Quarenta e cinco anos depois, São Paulo parecia reviver ares dos protestos de 1968 na quinta passeata. Perto de 100 mil pessoas foram às ruas, partindo do Largo da Batata rumo à Faria Lima. O Facebook havia se tornado praticamente monotemático. A incapacidade da PM para lidar com a novidade política que surgia havia sido escancarada pelos jovens. O secretário da Segurança Pública, Fernando Grella, sentiu o peso da opinião pública e determinou que os policiais do Choque só agiriam se fosse extremamente necessário.
Ondas de manifestantes se dividiram por três caminhos. Um grupo foi para a Ponte Estaiada, outro para a Paulista e um terceiro, mais radical, foi atacar o Palácio dos Bandeirantes. Depois de tanta desconfiança nos políticos, os jovens bem articulados do MPL tornavam-se a mais agradável surpresa do cenário recente.
Não se reclamava mais do trânsito nem dos protestos. A imprensa havia abraçado a causa. O comentarista Arnaldo Jabor, depois de criticar o movimento no início dos protestos, se desculpou e admitiu o erro. O Brasil parecia mudado, como se uma ficha gigante houvesse caído em algum momento.
6º PROTESTO (terça-feira, dia 18): Apesar do sucesso de público das passeatas, os políticos se mantinham irredutíveis até o sexto manifesto e não reduziam a tarifa. Foi quando os anarquistas dos Black Blocks decidiram entrar em ação. Quando todos esperavam mais uma passeata tranquila, com 30 mil pessoas, São Paulo viveu três horas de caos na mão de 300 jovens. O prédio da Prefeitura, o Teatro Municipal e o monumento da Praça do Patriarca foram pichados; 20 lojas, destruídas e saqueadas. A PM não agiu. Manifestantes foram para a frente da casa do prefeito Fernando Haddad. A violência assustou os políticos, que pareciam ter perdido o controle da situação. E, estavam, de fato.
7º PROTESTO (quinta-feira, dia 20): A estratégia da violência deu resultados. Prefeito e governador revogaram os aumentos. Na sétima passeata, 100 mil pessoas foram à Avenida Paulista com demandas diversas. As ruas haviam mostrado sua força. O PT, percebendo os riscos políticos de ter sido colocado ao lado dos antigos opositores, tentou se mostrar como aliado do movimento. Militantes corajosos deram a cara à tapa na passeata. E acabaram sendo agredidos por parte da população. Os protestos e seus métodos haviam se espalhado pelas outras capitais. Barricadas e depredações viraram uma forma de pressão. O Brasil, mesmo sem saber para onde segue, pode nunca mais ser o mesmo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

ATRITO-2008

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para o vídeo, albúm completo e o aúdio do Atrito vá ao blog do fabio cavalcante

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

ADEUS AO POETA JURANDIR BEZERRA



Assim que Haroldo, filho do poeta paraense Jurandyr Bezerra, me avisou, semana passada, do falecimento do pai no Rio de Janeiro, escrevi o texto "Um pássaro sem limites" e enviei a alguns jornais de Belém. Hoje saiu no Diário do Pará, uma matéria, basta clicar no link JURANDYR BEZERRA - DIÁRIO DO PARÁ  (o crédito da foto, não dado, é meu).

É claro que também não publicaram meu texto, apenas meia página foi dedicada ao poeta e a outra metade legada a uma propaganda de venda de apartamentos em 600 vezes. Afinal, como uma análise crítica, ainda que breve, de um poeta fundamental e desconhecido, de Belém, vai concorrer com a possibilidade da casa própria em 900 vezes?. Por isso, publico aqui, para vocês, meu texto sobre o poeta Jurandyr Bezerra. E logo em seguida a ótima matéria de Bianca Levy do Diário do Pará.

Um abraço,


UM PÁSSARO SEM LIMITES


 Ontem, dia 28 de maio, o poeta Jurandyr Bezerra fez seu derradeiro voo. Voo sem limites, como sua poesia, para os campos do mistério. Internado num hospital carioca com a saúde extremamente fragilizada, devido a uma complicação pulmonar, mas ainda bastante lúcido ao dar entrada no CTI, o poeta não resistiu.
Jurandyr nasceu em Belém, em 1928, onde ainda adolescente, junto com outros garotos como Benedito Nunes, Max Martins, Alonso Rocha e Haroldo Maranhão, começou a lutar com palavras. Depois mudou-se para o Rio de Janeiro e lá viveu e criou a bonita família Bezerra. Mas em surdina, ao longo do último meio século, o artista mais tímido e humilde que já conheci, construiu uma obra poética sólida e em sua maior parte ainda inédita.
Os limites do pássaro (1993, Ed. Cejup) foi o único livro publicado por esse poeta de verve altamente surrealista, cujos poemas impressionaram Carlos Drummond de Andrade e Antonio Olinto. Jurandyr construía versos com um estranho equilíbrio interno, o que resultou em poemas onde delírio e lirismo se casam de modo incomum nas imagens: “Vem chegando / a alegria de teu corpo / azul / verde / vermelho / para que o canto dos rins / seja teu hálito / chamo o pássaro e a flor. / E bebo tua boca / infinita e imponderável, / conduzindo-te ao mar / onde tua língua é uma festa”.
Uma irremediável loucura atravessa essa poética que na leitura nos toma sem alarde, criando um ambiente de mansidão e desventura “E quando pensei / que eu era uma fonte, / tu passaste / de cântaro / à cabeça...”, para, no meio do voo, nos golpear as entranhas “As auroras / construídas à noite / tinham um pedaço / de sua boca”. Há na poesia de Jurandyr um ritmo alucinado de marés arrebentando rochedos em contraste aos silêncios que improvisam a mais funda solidão dos voos.

Palavra
ou cicatriz,
a solidão
é um fruto
que o pássaro
não quis.

Imagens precisas e insólitas alternam-se entre segredos e “aleluias”. O céu visto do mar, o mar visto do céu pelo pássaro que, sabendo transpor distâncias com auxílio de asas silentes, guardava nas retinas os itinerários das palavras que o alimentavam. Jurandyr era um leitor de gosto aguçado e um sonhador sem limites. Olhar de criança envergonhada, em fevereiro desse ano, na sala de sua casa no Rio, o poeta me falava da potência e efeito da poesia de Wiliam Black sobre as atuais gerações de poetas e que um dia gostaria de conhecer o céu.

- “Mas não depois de morto, quero conhecer o céu ainda vivo, depois de morto não interessa”, disse.
- “Você é louco, um surrealista grandioso e louco?”, indaguei.
- “Fico feliz de você me chamar assim... eu gostaria muito de ser o que você disse”.

Poema nº 6

As moléculas
da água do mar
contêm tua nudez
e os desígnios da chama
e o ouro invisível
que flutua
nas divididas conchas.

Uma gota de sal
agônica
desprende-se do oceano
e abraça
a quilha de salgueiro
de teu corpo.
Aleluia!





Paulo Vieira,
são Paulo, 29.05.201
Assista no youtube ao vídeo 
de Jurandyr Bezerra  que produzi 
em março de 2013, aqui:
UM PÁSSARO SEM LIMITES